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DESAFIOS E DIFILCUDADES - CUSCO, PÉRU Criado em 1990, Quosqo Maki é uma associação
sem fins lucrativos que se consagra, sem fazer distinção entre
eles, às crianças e adolescentes, meninos e meninas que trabalham
ou vivem completamente nas ruas de um bairro de Cusco, no
Peru. Quando a gente inicia um trabalho de intervenção, a tentação é grande de pensar, sobretudo quando se trata de crianças e jovens, que os problemas serão resolvidos por um agente exterior. Falar em desafio é reconhecer que existem riscos, problemas, dificuldades que criam novos desafios. Refletir é progredir para melhor delimitar a ação. Minha reflexão, apresentada abaixo, trata sobre a ação que nós realizamos em relação à droga e essencialmente sobre a inalação de "terokal", uma cola utilizada pelos sapateiros.
Duas ações experimentais
Dentre as nossas atividades nós propomos duas ações experimentais :
Nesses dois locais nós praticamos um método de educação livre, a saber, resumindo, nós procuramos colocar em prática uma dinâmica a partir das escolhas e dos pontos de interesse da criança. O papel do adulto não é o de transmitir conhecimentos ou de modificar comportamentos, mas de estar na escuta, de perceber as questões, de estabelecer relações, de recolher as preocupações, de incitar as iniciativas, de promover opiniões, de alargar as perspectivas e de aprender junto. Outros eixos de trabalho de Quosqo Maki
A tecnologia para a elaboração de jogos educativos utilizáveis
em qualquer lugar. Nossos contatos com os "guinzeurs" (as crianças que inalam "terokal", quer dizer, "guinze") se dão, sobretudo, no abrigo. Atualmente nós temos grandes dificuldades, pois os "guinzeurs" não têm mais o direito de utilizar o abrigo, embora sejam aqueles que têm mais necessidade de usá-lo. O funcionamento do abrigo
Assim que foi criado esse programa, nós tínhamos decidido de nunca propor às crianças uma transmissão de saber. Nós sabíamos que nós não poderíamos fazer nem um foyer de tipo familial, nem um hotel receptor de clientes. Quando começamos, nós não tínhamos muitas referências. Nós tínhamos somente constatado que, entre as crianças das ruas, muitas dentre elas haviam decidido por si mesmas de sair de suas casas e fugiam das instituições onde a Justiça as colocava periodicamente em pensionato. De fato, o caso delas é semelhante ao dos casais que se separam assim que a vida em comum tira a identidade de um de seus membros (ou dos dois), freia as suas potencialidades e nega sua identidade social. A única diferença é que a separação de um casal é aceita socialmente, enquanto, por outro lado, nós tratamos as crianças como fujonas. Nós procuramos investigar, então, quais eram os motivos que levavam uma criança a fugir de casa. Dentre esses motivos, contrariamente ao que se pensa em geral, o fator independente da criança tem um peso importante. Aí entram os mal-tratos dos pais ou de um irmão mais velho, a morte do pai ou da mãe, a violência da criança em relação à sua mãe, o alcoolismo, a pobreza, a separação dos pais, a influência dos amigos. Nós propusemos de definir, juntamente com os usuários, como
seria o dormitório. Nós partimos de suas carências (criança
abandonada) e não de suas potencialidades (criança livre). A
partir daí derivou-se toda a estratégia que nós seguimos
: ativar todos os mecanismos de responsabilização individual
e coletiva. A vida no abrigo foi organizada à partir de assembléias
gerais onde as decisões eram tomadas de maneira consensual. Cada um
devia dar a sua opinião para aceitar ou debater uma proposta. Paralelamente,
uma equipe de educadores se esforçava para compreender a realidade
vivida a cada dia pelos usuários noturnos do abrigo. Eles viviam na
rua, discutindo com os jovens, partilhando na noite um cobertor, falando de
novidades e de preocupações cotidianas. Foi assim que nasceu
a caixinha comum : na rua, um pequeno grupo que havia encontrado um educador
entrou em acordo para fazer uma caixinha comum para comprar cobertores e pão,
até que uma das crianças propunha : "É melhor colocar
os cobertores num abrigo e dormirmos todos lá". Aqueles que trabalhavam
deram o equivalente do preço de dois pães, os pequenos que mendigavam
o preço de um só pão, e os grandes o valor de quatro
pães. O esporte que todos praticam a cada dia à seis horas da
manhã começou quando as crianças perceberam que o educador
saia para correr sozinho enquanto, antes que eles acordassem. Todos os problemas
e as novidades eram discutidos entre todos e a cada seis meses, geralmente,
todos partiam para o fim de semana longe de Cusco para avaliar o funcionamento
geral do abrigo e o progresso de cada um, inclusive dos educadores. A avaliação
pelas crianças da conduta de um educador provava a relação
horizontal, a capacidade de cada um de participar na boa caminhada do processo,
e papeis diferentes entre uns e outros. As bases do que nós chamamos
"a co-gestão" do abrigo estavam postas. A cola (el terokal)
O hábito de inalar cola ("guinzer") não estava muito instalado. Nós sabíamos que às vezes alguns grandes cheiravam para "viajar" de vez em quando, mas isso não interferia muito no funcionamento do abrigo. Era um pouco tabu. As meninas não experimentavam, não mais que aquelas que haviam escolhido de sair de casa. Era como para qualquer criança, a vontade de experimentar alguma coisa proibida, durante o seu tempo livre. Eles paravam com a mesma facilidade que haviam começado. Os consumidores ferrenhos, segundo os depoimentos de alguns dentre eles, podiam abandonar a cola de um momento a outro, para ir ver um vídeo, para ir escutar um adulto de confiança que o chamava no bom momento, para fazer um novo trabalho, porque eles já estavam entediados. Agora a situação é diferente. Eles começam a "guinzar" muito mais jovens (10-11 anos) e não hesitam em fazê-lo em público, tem, a cada vez, mais e mais meninas que representam um papel importante para influenciar os meninos. Todos "guinzam" abertamente, todos os dias, como para expressar publicamente um protesto. Uma outra diferença : os depoimentos atuais insistem sobre a dificuldade a se desacostumar, falam da importância que tem para eles as alucinações, mas muitos dizem que "guinzam" para esquecer a realidade que lhe é insuportável. Este é um ponto importante. Quem pode viver (o que chamamos viver não é somente respirar) sobre um estresse permanente ? E quem somos nós para condenar aquele que se rebela ? Ou nós os condenamos para nos convencermos de que não somos responsáveis por isso ? Esses depoimentos nos fazem tocar em dois pontos fracos de uma ação : a falta de estudos e as dificuldades de coordination. Que sabemos nós a respeito da cola ? As pesquisas médicas ou sociológicas sobre a inalação da cola são pouco numerosas e não podem servir de referência para abordar seriamente a questão. Os meios existentes para ajudar os "guinzeurs" a deixar de inalar também não existem atualmente. É evidente que mesmo se a cola não tem as conotações da cocaína ou da heroína porque ela não produz benefícios notáveis, ela faz, no entanto, parte do sistema. Tem muita imaginação nas propostas de culturas alternativas à coca, quer dizer ao oferecimento, mais quais são as alternativas para satisfazer a demanda ? E a demanda de que ? Nós não podemos cair na facilidade de pensar que se trata somente de alguns indivíduos marginais que procuram fugir da realidade. Como o vento anuncia a tempestade, a rebelião é um indicador da injustiça social. Entre nós, é evidente que é uma demanda de utilidade social. É evidente que nenhum abrigo municipal não poderá fornecer um emprego a todos aqueles que demandam. Mas ele pode ser um grão de areia e uma pista que se abre para desenvolver a capacidade das crianças para enfrentar os obstáculos, como alguns acreditam. Mas não pode ser um pretexto para evitar as responsabilidades políticas. Com o tempo, o abrigo perdeu sua dinâmica. Esse processo vale a pena de ser estudado na tentativa de compreender as causas. A perda da dinâmica
A rotina se instalou quando as normas estabelecidas cessaram de fazer questão. A cooperação entre os usuários e os educadores se perdeu porque os educadores perderam o contato com os usuários. Eles não tomavam mais o tempo de conhecer cada um dentre eles e de trocar suas opiniões. Ao invés disso, eles se consagravam a registrar as datas, a distribuir tarefas. Não havia mais aprendizado mútuo. A criança tinha se tornado objeto de intervenção. As assembléias tinham conservado sua forma, mas tinha perdido seu espírito. As decisões não se davam mais por consenso, mas por comportamento para terminar mais rápido. Os temas eram repetitivos e os acordos não eram respeitados. A fim de colocar em evidência o impacto do abrigo, um processo de planificação das atividades foi colocado em prática pelos educadores que haviam perdido de vista a razão de ser da atividade. Por exemplo, a quota contribuída por cada um para a caixinha comum se tornou prioridade , enquanto que a importância inicial era o debate, a decisão coletiva de uma troca em benefício de todos. Eram os adultos que não contribuíam que decidiam para que serviria esse dinheiro. Para os usuários, a quota exigida na entrada se transformou em uma espécie de imposto, de dever a pagar para poder dormir. O abrigo, desde então, está cada vez mais considerado como hotel barato a utilizar na espera de um melhor. A edificação conjunta de um projeto comum se perdeu na estrada. É nesse contexto que a assembléia decidiu de recusar a acolher
os "guinzeurs" porque eles (o que é verdade) provocavam
desordens e causavam más impressões. Como conseqüência,
o abrigo não é mais público, Num primeiro tempo, nós tentamos organizar discussões ou outros eventos para combater o consumo de cola. Isso não teve nenhum efeito, ao contrário, as tentativas foram contra-produtivas. Nós direcionamos nossos ataques para a cola, quer dizer para um indicador, enquanto que teria sido melhor fazer aos "guinzeurs" propostas mais atraentes. O esporte pode às vezes ser uma boa alternativa. Muitos vêm ao abrigo sem cola nos dias em que, no mesmo, acontecem jogos organizados. Nós brincamos, o melhor ganha e fazendo esse caminho, amizades nascem e bons momentos são partilhados. Conclusão do experiência
do abrigo
Como conclusão, no que concerne a experiência do abrigo, os
desafios são variados : Que lições
podemos tirar dessa experiência ? O projeto não deve confundir objetivo e indicador. O consumo de droga é um indicador de protesto social e de sofrimento individual e direcionar ataques para o indicador. O projeto deve imperativamente visar os atores e não o objeto. Nós não trabalhamos contra a "guinze", mas para os "guinzeurs". O projeto é uma cooperação entre os diferentes atores e não uma manipulação, nem uma imposição, nem uma compaixão. O projeto deve necessariamente se fundar sobre a liberdade e a escolha dos interessados : eles são os únicos a poderem conduzir seu desenvolvimento. A função de um projeto é de multiplicar as oportunidades para que os interessados tenham uma variedade de opções para dentre as quais escolherem. A primeira condição a preencher para multiplicar as ocasiões
é de conhecer e de fazer conhecer (inclusive aos interessados) a realidade
e sua problemática. Isso implica um processo permanente de estudos. O indicador do fim de um projeto é que ele se tornou dinâmico. Quais pistas
nós descobrimos neste caminho ? A importância dos espaços não formais, pois eles implicam e intensificam a criatividade ao mesmo tempo em que as ocasiões de socialização (no nosso caso, a biblioteca), devem ser co-geridos, e terem a possibilidade de acolher atividades esportivas e culturais, concursos, organização de viagens, etc... Os programas do Ministério do Trabalho permitindo aos jovens que não terminaram um ciclo escolar receber uma formação técnica durante 3 meses, seguida de um aprendizado de 3 meses e desembocando num certificado de aptidão profissional. A importância da dimensão política e social, a vontade da municipalidade.
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